Pular para o conteúdo
Cozinha Coreana no Brasil

Por que o kimchi era enterrado

Antes da geladeira, o kimchi passava o inverno em potes de barro enterrados no quintal. O buraco resolvia dois problemas de uma vez — e um deles a geladeira comum ainda não resolve.

· Do período Joseon aos anos 1990

O buraco resolvia dois problemas, não um

Enterrar o pote parece solução de quem não tinha geladeira. É mais que isso: o quintal resolvia duas coisas que a cozinha não resolvia — temperatura estável e troca de gás. A primeira era o buraco. A segunda era o barro.

A temperatura, que é o problema óbvio

Kimchi é vegetal em fermentação láctica, e fermentação láctica é sensível a temperatura. Quente demais, as bactérias trabalham rápido e o kimchi azeda em dias. Frio demais, param, e ele fica cru. O ponto bom é uma faixa estreita e, principalmente, estável.

O inverno coreano é longo e rigoroso — a própria UNESCO o descreve assim ao explicar por que o kimjang existe. Um pote na cozinha passaria do ponto no calor e congelaria no frio.

O solo, não. Segundo a agência de cultura do governo coreano, a temperatura subterrânea se mantém constante em torno de ±1 °C. Não é só “frio”: é frio que não muda. O pote enterrado até a boca ficava meses numa temperatura próxima de zero sem congelar e, sobretudo, sem oscilar.

O barro, que é o problema interessante

Aqui a explicação popular costuma errar. Diz-se que o onggi é poroso “para o pote não estourar com o gás”. A pesquisa mostra outra coisa.

Um estudo publicado em 2023 no Journal of the Royal Society Interface fermentou acelga salgada em onggi e em vidro hermético, medindo a concentração de gás carbônico ao longo do tempo. O onggi tem microporos de 1 a 100 micrômetros, que deixam passar oxigênio e gás carbônico muito mais que plástico ou vidro. O efeito não é aliviar pressão: é baixar o CO₂ interno até o nível que as bactérias láticas preferem — o que acelera a fermentação em vez de apenas acomodá-la.

Os autores notam algo que fecha o raciocínio: a estrutura porosa do barro imita o solo solto onde essas bactérias vivem naturalmente. O pote não era um recipiente inerte com o alimento dentro. Era parte do processo.

O kimjang

A produção era coletiva e sazonal. No fim do outono, famílias e vizinhos se juntavam para preparar de uma vez o kimchi que duraria o inverno inteiro — o kimjang.

A UNESCO inscreveu a prática na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial em 2013. Vale reparar no que exatamente foi reconhecido: não a receita, mas o arranjo social. O texto da inscrição fala em reafirmar identidade e fortalecer a cooperação familiar. O que virou patrimônio foi o mutirão.

Por que os coreanos têm duas geladeiras

Quando a geladeira doméstica chegou, ficou claro que ela não substituía o buraco. O motivo é específico, e não é o que se costuma dizer.

A geladeira comum resfria soprando ar frio pelo interior. Isso cria variação térmica que, segundo o Korea Times, chega a 10 graus entre pontos do mesmo aparelho. Para quase todo alimento, tanto faz. Para uma fermentação que depende de estabilidade, é o oposto do quintal.

Em 1995, a Winia Mando lançou a Dimchae, que resfria de forma direta: uma serpentina envolve o compartimento inteiro, sem ar circulando. Vendeu 5 mil unidades no primeiro ano, 10 mil no segundo, 80 mil em 1997, 228 mil em 1998 e 530 mil em 1999 — a curva de um aparelho que resolveu um problema real. Em 2021, mais de 98% dos lares coreanos tinham um.

O que a geladeira de kimchi reproduz, tecnicamente, é o buraco no quintal.

O que isso muda para quem faz kimchi no Brasil

A lição prática não é sobre frio, é sobre constância: a oscilação atrapalha mais que a temperatura em si. Uma geladeira brasileira comum sopra ar como qualquer outra, e a prateleira do meio é justamente onde a variação é maior.

Na falta de onggi e de quintal, o que dá para fazer é reduzir oscilação: escolher o ponto mais estável da geladeira, evitar a porta, e resistir a abrir toda hora. Isto é recomendação empírica, não medição — mas segue o princípio que os quatro séculos anteriores já tinham resolvido melhor que nós.

Fontes